A revolução cervejeira Argentina

Assim como no Brasil, o movimento craft vem ganhando força na cena cervejeira argentina, e, a cada dia, novos pubs nascem para a alegria dos hermanos!

Antes de qualquer coisa, ao me formar sommelier, fiz um juramento de ser ético, de respeitar todas as cervejas, independente do que as compõe, e, na minha humílima opinião, afirmar que cerveja é feita apenas com água, malte de cevada, lúpulo e levedura é focar apenas na Reinheitsgebot, Lei de pureza alemã, excluindo, inclusive, a escola belga que nos traz verdadeiras preciosidades.

E sim, eu não critico as cervejas mainstreams, que têm seus propósitos e proporcionam a inclusão, afinal, muitas pessoas não teriam como sair do árduo trabalho e tomar sua cervejinha, ou ainda, comemorar a chagada do fim de semana com sua cerveja gelada se não fossem elas.

Veja bem, aqui falo da cerveja e sua composição, jamais da prática de mercado, que é um assunto vasto, complexo e demandam validação, digno de um artigo inteiro, ok?!

Voltando ao tema inicial, os argentinos – com ênfase nos três pilares básicos “beba local”, “beba menos, beba melhor” e produção de cerveja apenas com malte, lúpulo, água e levedura -, buscam valorizar as cervejas artesanais e seus diferenciais em relação às cervejas mainstreams (“populares”).

Nesses 15 dias de passeio cervejeiro e busca pelas novidades, posso seguramente afirmar que as cervejas argentinas têm qualidades e características próprias! Longe de ser uma escola cervejeira, as crafts argentinas possuem – em quase sua totalidade – corpo leve, aromas maltados mais evidentes e lupulados mais discretos, amargor menos pronunciado e espumas mais densas. As notas maltadas e adocicadas estão quase sempre presentes, contrabalanceando com as notas cítricas.

Um exemplo que me agradou foi uma Red IPA da Nolla Buenos Aires, de cor bastante escura, quase negra com tons violáceos, corpo leve, boa formação e estabilidade de espuma, sendo visualmente percebida como uma cerveja extremante forte, alcoólica e encorpada à lá Barley Wine, mas que ao degustar mostrou-se uma explosão de refrescância, com aromas iniciais de caramelo, equilibradas com limão siciliano, maracujá e uma sutil manga verde. Na boca, médio a baixo amargor, com fim de boca suave, mas deliciosamente persistente. Uma cerveja refrescante no alto dos seus 6% de ABV, equilíbrio é a palavra chave!

Estilos à parte, minha impressão é que os cervejeiros argentinos transitam entre as escolas alemã e americana, ficando ali, bem no meio das duas, e a um passo de arriscar um pouco mais em uma terra tão rica de aromas, texturas e sabores!

Traçando um comparativo com as cervejas brasileiras, me atrevo a dizer que produzimos cervejas mais “vivas”, com maiores explosões de sabores e aromas, com dry hops impecáveis, combinações de lúpulos, frutas e especiarias, assumindo mais riscos e produzindo cervejas especiais e exclusivas!

De forma alguma digo que uma é melhor que a outra, apenas ressalto as diferenças que compõem as características do produto final: a sagrada breja!

E por falar em dry hop, conversei com diversos cervejeiros e nenhum deles utiliza este método, alguns por desconhecimento (também assustei), outros por economia, ou ainda, para manter a característica inicial da cerveja que agradou aos clientes. Neste ponto eu argumento, onde está o risco? Porque não lançar mão das sazonais para fazer uma pesquisa de mercado? Porque não sair da zona de conforto onde as possibilidades de combinações são infinitas?

As harmonizações com as cervejas locais foram quase sempre um desafio, pois, de um lado temos cervejas com características bem definidas, similares em teor alcoólico e seguindo um padrão de aroma e amargor, de outro, tira gostos, queijos, presuntos cozidos ou crus mais gordurosos, sabores fortes e bastante condimentados, assim como as carnes e massas, um campo muitíssimo especial para desenvolver este trabalho, que não possui profissionais qualificados, pois esta ainda não é uma preocupação pelas bandas de lá.

Fato é que se trata de gosto e cultura. Os argentinos podem sim ter orgulho da sua cerveja, da força do beba local e a valorização das cervejas artesanais/especiais. Saúde!

Alguns lugares que visitei:

Buller Downtown

Paraguay 428, Buenos Aires.

Nolla

Gorriti 4389, Buenos Aires.

The Hops

Castillo, 422.Vila Crespo. Buenos Aires.

Antares

Armenia 1447. Palermo. Buenos Aires.

Old Mule

José Antônio Cabrera, 4946. Palermo.

On Tap

Av.Caseros 482. San Telmo.

Estes são apenas alguns dos lugares visitados!

Meu lugar preferido – On Tap!

Imagem: Rodrigo Buta

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About Léo Romano

Beer Sommelier formado pela Doemens Akademie.

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